A SOCIEDADE DO CUIDADO COMO ANTÍDOTO A PARA A ERA DA DESINFORMAÇÃO

Giovani Miguez • 31 de janeiro de 2025

Em uma sociedade moldada por algoritmos e desinformação, precisamos de uma nova ética - uma ética do cuidado! 

A sociedade hodierna, imersa na hiperconexão e moldada pela lógica algorítmica, enfrenta o desafio crescente da desinformação e das fake news. A inteligência artificial (IA), apesar de seu potencial transformador, agrava essa problemática ao ser utilizada para a produção e disseminação de conteúdo falso. Diante desse cenário, a fragilidade humana se acentua, demandando uma profunda reflexão sobre a ética e o futuro da sociedade.


Este pequeno ensaio propõe que uma teoria social do cuidado, amparada pela antropologia filosófica, pode oferecer um caminho para a construção de uma nova ética - uma ética do cuidado - capaz de guiar a sociedade em direção a um futuro mais humano e solidário. Para tanto, o texto que se apresenta está estruturado em três eixos: a fragilidade humana na sociedade hiperconectada, a necessidade de uma nova ética e a sociedade do cuidado como horizonte.


1. A Fragilidade Humana na Sociedade Hiperconectada:


A hiperconexão, fruto da revolução digital, caracteriza-se pela intensificação das relações sociais mediadas por tecnologias digitais.  Essa intensificação, embora traga benefícios como o acesso à informação e a comunicação instantânea, também expõe os indivíduos a uma avalanche de informações, muitas vezes falsas ou manipuladoras. 


Algoritmos, que regem o funcionamento das redes sociais e plataformas digitais, visam maximizar o engajamento e o lucro, o que pode levar à amplificação de bolhas de crenças e à disseminação de conteúdo falso.  Essa lógica algorítmica, focada em métricas e não em valores humanos, contribui para a desumanização e a fragilização dos indivíduos. 


Nesse contexto, a proliferação da desinformação e das fake news erode a confiança nas instituições, causa polarização e fragmentação social, e coloca em risco a democracia.  A manipulação online, potencializada pela IA, afeta a capacidade de discernimento dos indivíduos, tornando-os vulneráveis à propaganda enganosa e ao discurso de ódio. 


2. A Necessidade de uma Nova Ética:


Diante da fragilidade humana na sociedade hiperconectada, a ética tradicional, muitas vezes baseada em princípios abstratos e individuais, mostra-se insuficiente.  A desinformação e a manipulação online exigem uma ética que leve em conta a dimensão relacional e o impacto das ações individuais no coletivo. 


A antropologia filosófica, ao investigar a natureza humana e sua capacidade para o cuidado, pode fornecer bases para uma nova ética.  Essa ética, enquanto filosofia prática, deve se traduzir em ações concretas que promovam o bem-estar individual e coletivo, combatendo a desinformação e construindo uma "sociedade do cuidado". 


3. A Sociedade do Cuidado como Horizonte:


A "sociedade do cuidado" seria aquela em que o cuidado com o outro estivesse no centro das relações sociais, políticas e econômicas.  Nessa sociedade, a IA seria utilizada de forma ética e responsável, a serviço do bem comum, e não para fins de manipulação e controle. 


Para construir essa sociedade, é preciso:


  • Repensar a educação: Formar cidadãos críticos e conscientes, capazes de usar a tecnologia de forma responsável e ética.  
  • Promover a inclusão digital: Garantir que todos tenham acesso à tecnologia e à informação, combatendo a exclusão digital e a desigualdade social.  
  • Desenvolver tecnologias éticas: Criar algoritmos que promovam a justiça, a equidade e o respeito à diversidade.  
  • Regular o uso da IA: Estabelecer limites e diretrizes para o uso da IA, protegendo os direitos individuais e coletivos.  
  • Fortalecer as instituições democráticas: Promover a participação cidadã, a transparência e a accountability no uso da IA.  


Deste modo, a construção de uma "sociedade do cuidado" é um desafio complexo, mas urgente. A desinformação, os algoritmos e a IA estão moldando o futuro, e é preciso agir para garantir que essa moldagem seja ética e responsável. Uma  teoria social do cuidado, portanto, com sua ênfase na interdependência, na empatia e na responsabilidade, oferece um caminho promissor para a construção de um futuro mais justo, humano e solidário.


Giovani Miguez

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