A sociedade hodierna, imersa na hiperconexão e moldada pela lógica algorítmica, enfrenta o desafio crescente da desinformação e das fake news. A inteligência artificial (IA), apesar de seu potencial transformador, agrava essa problemática ao ser utilizada para a produção e disseminação de conteúdo falso. Diante desse cenário, a fragilidade humana se acentua, demandando uma profunda reflexão sobre a ética e o futuro da sociedade.
Este pequeno ensaio propõe que uma teoria social do cuidado, amparada pela antropologia filosófica, pode oferecer um caminho para a construção de uma nova ética - uma ética do cuidado - capaz de guiar a sociedade em direção a um futuro mais humano e solidário. Para tanto, o texto que se apresenta está estruturado em três eixos: a fragilidade humana na sociedade hiperconectada, a necessidade de uma nova ética e a sociedade do cuidado como horizonte.
1. A Fragilidade Humana na Sociedade Hiperconectada:
A hiperconexão, fruto da revolução digital, caracteriza-se pela intensificação das relações sociais mediadas por tecnologias digitais. Essa intensificação, embora traga benefícios como o acesso à informação e a comunicação instantânea, também expõe os indivíduos a uma avalanche de informações, muitas vezes falsas ou manipuladoras.
Algoritmos, que regem o funcionamento das redes sociais e plataformas digitais, visam maximizar o engajamento e o lucro, o que pode levar à amplificação de bolhas de crenças e à disseminação de conteúdo falso. Essa lógica algorítmica, focada em métricas e não em valores humanos, contribui para a desumanização e a fragilização dos indivíduos.
Nesse contexto, a proliferação da desinformação e das fake news erode a confiança nas instituições, causa polarização e fragmentação social, e coloca em risco a democracia. A manipulação online, potencializada pela IA, afeta a capacidade de discernimento dos indivíduos, tornando-os vulneráveis à propaganda enganosa e ao discurso de ódio.
2. A Necessidade de uma Nova Ética:
Diante da fragilidade humana na sociedade hiperconectada, a ética tradicional, muitas vezes baseada em princípios abstratos e individuais, mostra-se insuficiente. A desinformação e a manipulação online exigem uma ética que leve em conta a dimensão relacional e o impacto das ações individuais no coletivo.
A antropologia filosófica, ao investigar a natureza humana e sua capacidade para o cuidado, pode fornecer bases para uma nova ética. Essa ética, enquanto filosofia prática, deve se traduzir em ações concretas que promovam o bem-estar individual e coletivo, combatendo a desinformação e construindo uma "sociedade do cuidado".
3. A Sociedade do Cuidado como Horizonte:
A "sociedade do cuidado" seria aquela em que o cuidado com o outro estivesse no centro das relações sociais, políticas e econômicas. Nessa sociedade, a IA seria utilizada de forma ética e responsável, a serviço do bem comum, e não para fins de manipulação e controle.
Para construir essa sociedade, é preciso:
Deste modo, a construção de uma "sociedade do cuidado" é um desafio complexo, mas urgente. A desinformação, os algoritmos e a IA estão moldando o futuro, e é preciso agir para garantir que essa moldagem seja ética e responsável. Uma teoria social do cuidado, portanto, com sua ênfase na interdependência, na empatia e na responsabilidade, oferece um caminho promissor para a construção de um futuro mais justo, humano e solidário.