Nunca finalizei um diário. Memórias, afetos, pensamentos e histórias não me faltavam. O que me faltava era disciplina para a escrita cotidiana. Meus pensamentos relevantes eram registrados no terreno sem lei das redes sociais, efêmeros e jogados ali por vaidade, ostentação e busca por reconhecimento. Uma escrita narcisista e egocêntrica.
Quem escreve um diário o faz de forma íntima, sem alardear. É uma troca de correspondências consigo mesmo, uma escrita de si, mesmo quando fala do mundo ao redor.
E por não ter escrito diários, hoje me faltam registros importantes para compreender os caminhos que trilhei. Diários deveriam ser permanentes no currículo escolar. Nas escolas, deveríamos iniciar e finalizar a semana com uma aula de "escrita de si". Na segunda, observaríamos o que anotar, na sexta, através dos registros, faríamos uma autoavaliação.
A escrita possibilita inúmeros benefícios: melhora a cognição, a comunicação, estimula a curiosidade, constrói o pensamento crítico e consolida a criatividade. O diário é um exercício permanente de reflexão e autoconhecimento, cada vez mais necessário em um mundo em crise de narração e contemplação.
Quantos livros e textos relevantes li e anotei em folhas soltas que se perderam nas arrumações? Considerados irrelevantes, foram descartados. Nenhum texto deve ser ignorado.
Quantos planos fiz e que hoje se apagaram com o tempo? De quantas conversas com amigos não tenho registro? De quantas pessoas legais já nem lembro o nome? De quantos lugares viajei e que não posso mais descrever em detalhes porque as lembranças se apagaram? Tudo isso porque não persisti na escrita de um diário pessoal.
Dos dez anos de idade, quando tentei iniciar meu primeiro diário, até hoje, são 35 anos "perdidos", parcialmente esquecidos por incapacidade de registrá-los.
Tenho dois filhos, meninos criados em um mundo multimídia, onde a escrita e a leitura perdem a centralidade. Já é difícil fazê-los se dedicar aos livros, imagina convencê-los a escrever em um caderninho suas memórias, afetos e pensamentos. Com o mais velho, que fez dez anos recentemente, até tentei. Mas, como nunca terminei um diário, me sinto incapaz de dizer a ele como é bom poder olhar para o passado e ver a evolução da minha escrita, a mudança dos meus pensamentos e como fui transformado pelo mundo.
Ainda assim, nutro o sonho de que meus meninos se tornem seres humanos capazes de registrar sua passagem por este mundo. Não para ter fama, mas para manter dentro de si uma chama: a chama que só o hábito de iniciar e terminar um diário, ano após ano, pode acender dentro de cada um de nós. Diários são alimentos em tempos de escuridão, seca e fome, onde a alma precisa ser aquecida, iluminada e nutrida pelas nossas recordações.
Um diário é um inventário da alma. Sei bem disso. Nunca terminei um diário, e agora me sinto desamparado, buscando a todo custo encontrar memórias que estariam preservadas se eu tivesse perseverado.
Rio de Janeiro - RJ