NOTAS SOBRE A (IN)FELICIDADE

Giovani Miguez • 3 de dezembro de 2024

Talvez minha aparente infelicidade devesse se converter em uma genuína (in)felicidade.

Crônica


1998. O milênio ainda era um vislumbre distante, e eu, um jovem publicitário em formação, já folheava as páginas amareladas de "A Conquista da Felicidade", de Bertrand Russel. Mal sabia que essa seria a primeira de muitas jornadas literárias em busca daquela esquiva companheira: a felicidade.


Ao longo dos anos, acumulei uma pilha de dezenas de livros, cada um com sua própria receita para a tal felicidade. Mergulhei na filosofia de Aristóteles com Fermani, explorei o conceito de flow com Csikszentmihalyi, e até me aventurei na "História da (In)felicidade" com Schoch. Teve época em que eu achava que a felicidade era uma meta a ser conquistada, como Seligman propõe em "Felicidade Autêntica". Em outros momentos, me convenci de que era uma construção diária, como Dolan sugere em "Felicidade Construída".


Mas a verdade é que, apesar de toda a sabedoria acumulada nessas páginas, a felicidade continuava a me escapar pelos dedos. Era como se eu estivesse eternamente à beira de um lago cristalino, vendo o reflexo da felicidade na água, mas sem conseguir tocá-la.


Em "A Felicidade, Desesperadamente", Comte-Sponville me fez questionar se essa busca incessante não era, em si, um obstáculo à felicidade. Será que, ao invés de correr atrás dela, eu deveria simplesmente ser? E se, como sugere o mestre budista Ricard, a felicidade estivesse na prática do bem-estar, na compaixão e na gratidão?


Talvez a resposta não esteja em nenhum desses livros, mas sim dentro de mim. Talvez a felicidade não seja um destino, mas uma jornada. Uma jornada que cada um de nós precisa trilhar à sua maneira, escrevendo sua própria história, sua própria definição de felicidade. Talvez minha aparente infelicidade devesse se converter em uma genuína (in)felicidade.


E assim, em 2024, com a alma leve e o coração aberto, eu me despeço da inquietação e abraço a incerteza. Afinal, se ao longo dos séculos tantos autores buscaram definir a felicidade, talvez em vão, quem sou eu para encontrá-la em alguns livros? Penso hoje que a verdadeira felicidade esteja em criar, em expressar, em viver a vida com autenticidade. E é isso que eu pretendo fazer, escrevendo aquilo que minha alma precisa ler, aquilo que nenhum livro jamais me contou.


Rio de Janeiro, 03 de dezembro de 2012


Giovani Miguez

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