O CAMINHAR E O ATO POÉTICO

Giovani Miguez • 2 de maio de 2024

Caminhar é poesia em movimento.

Meus pés tocam o chão com leveza, ritmados pela melodia da natureza. O vento sussurra segredos entre as folhas das árvores, o sol desenha arabescos dourados no tapete verdejante, e o canto dos pássaros compõe a trilha sonora da minha jornada. Caminhar, para mim, é mais do que simplesmente me locomover do ponto A para o ponto B. É um ato poético, uma forma de me conectar com o mundo ao meu redor e comigo mesmo.

Em cada passo, descubro uma nova perspectiva, um novo detalhe que antes me passava despercebido. A luz e a sombra brincam em tons de verde, o aroma da terra úmida me invade as narinas, e a textura rugosa da casca das árvores desperta meus sentidos. Caminhar é um convite à imersão sensorial, um despertar da alma para a beleza que nos cerca.


Inspirado por Rousseau e Thoreau, encontro na natureza um refúgio para a mente e para o coração. Afasto-me da agitação da vida urbana e me permito ser guiado pelo ritmo tranquilo da minha caminhada. A cada passo, sinto o peso das preocupações se dissipar, dando lugar à paz interior e à clareza mental.

Nietzsche me ensina que o caminhar é propício à reflexão profunda. Em meio à quietude da natureza, meus pensamentos fluem livremente, explorando os meandros da minha própria existência. Conecto-me com a minha essência, com meus valores e meus sonhos. A cada passo, me aproximo de um autoconhecimento mais profundo.


Assim como Solnit defende, acredito que o caminhar pode ser um ato de resistência à tirania da velocidade. Em um mundo que nos cobra pressa e eficiência, desacelero meus passos e me permito apreciar a beleza do presente. Caminhar é uma forma de subverter a lógica do imediatismo, de recuperar o controle sobre o meu próprio tempo e ritmo de vida.

Inspirado por Gros, vejo na filosofia da caminhada um convite à contemplação e à reflexão crítica. Questiono as estruturas sociais, os valores que nos são impostos e a forma como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor. Caminhar é uma forma de me posicionar no mundo, de questionar o status quo e buscar alternativas mais justas e sustentáveis.


Careri e Labbuci me guiam na percepção da arte presente na natureza e nas cidades que perambulo. Cada passo revela uma nova obra de arte, um novo ângulo para observar a beleza do mundo. A luz e a sombra esculpem formas geométricas nas fachadas dos edifícios, as rachaduras no asfalto contam histórias de um passado longínquo, e as flores silvestres colorem a paisagem com seus tons vibrantes. Caminhar é uma forma de democratizar o acesso à arte, de torná-la acessível a todos, independentemente de classe social ou nível de escolaridade.


Schelle me convida a reexaminar o ritmo acelerado da vida moderna. Em minhas caminhadas, encontro um refúgio para a alma, um espaço para desacelerar e me conectar com a minha respiração. Caminhar é um ato de autocuidado, uma forma de cuidar da minha saúde física e mental, em um mundo cada vez mais estressante e ansioso.


Por fim, encontro em Rubinstein e Coverley a inspiração para refletir sobre o papel do caminhar na construção de comunidades mais resilientes e sustentáveis. Caminhar juntos, em grupos, pode ser uma forma de fortalecer os laços de amizade e solidariedade, de construir pontes entre diferentes culturas e perspectivas. Caminhar é um ato de conexão, de colaboração, de construção de um futuro mais justo e sustentável para todos.


Caminhar é poesia em movimento. É um ato que transcende a mera locomoção física e se transforma em uma experiência sensorial, reflexiva, crítica, artística e social. Em cada passo, descubro um novo mundo, me aproximo de mim mesmo e me conecto com a beleza que me rodeia. Caminhar é um ato de amor à vida, um convite à celebração da simplicidade e da beleza do presente.


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