Aristóteles, penso, expressa a primeira grande relação entre ler e cuidar. Em sua "Poética", ele não apenas define os elementos da tragédia e da comédia, mas também tece uma profunda reflexão sobre o poder transformador da leitura. Para ele, a literatura, quando apreciada de forma crítica e reflexiva, transcende o mero entretenimento e assume um papel fundamental na cura da alma e na construção de uma sociedade mais justa e harmônica.
No argumento aristotélico, a catarse, enquanto purificação das emoções através da mimese, é um dos pilares dessa relação entre leitura e cuidado. Ao presenciarmos a representação de sofrimento e dor em uma obra trágica, por exemplo, somos levados a experienciar um processo de liberação de tensões e sentimentos reprimidos. Essa catarse nos permite lidar com nossas próprias emoções negativas de forma saudável, promovendo um estado de equilíbrio e serenidade.
A leitura, penso, em uma leitura aristotélica mais abrangente, também contribui para o desenvolvimento da empatia e da compaixão. Ao nos conectarmos com os personagens e suas vivências, somos capazes de compreender e compartilhar seus sentimentos, expandindo nossa capacidade de amar e cuidar do outro. Essa experiência pode ser especialmente importante para aqueles que enfrentam traumas e dificuldades emocionais, pois oferece um espaço seguro para explorar e processar suas dores.
Além disso, a literatura oferece um espelho para a alma, convidando-nos a um profundo autoconhecimento. Ao nos reconhecermos nos personagens e suas ações, somos confrontados com nossas próprias fragilidades e vícios. Essa experiência, embora desafiadora, pode ser o primeiro passo para a cura e o crescimento pessoal. A partir do reconhecimento de nossas falhas, podemos buscar mudança e transformação, construindo uma versão mais autêntica e saudável de nós mesmos.
Por fim, a leitura teria o potencial de promover a transformação social. Ao nos conscientizar sobre os problemas da sociedade e inspirar-nos a buscar soluções, a literatura se torna um instrumento poderoso para a construção de um mundo mais justo, igualitário e pacifico. Através da arte, podemos dar voz aos oprimidos, desafiar as estruturas de poder e construir um futuro mais promissor para todos.
Enfim, a leitura, quando realizada de forma crítica e reflexiva, pode ser um poderoso instrumento de cura individual e social. Através da catarse, da empatia, do autoconhecimento e da transformação social, a literatura contribui para o bem-estar do indivíduo e da comunidade, promovendo um mundo mais justo, harmônico e curado.
Nos meus estudos, tenho buscado aproximara ideia da biblioterapia a de uma antropologia filosófica, considerando o livro, enquanto uma tecnologia do ser, um objeto social e, nessa toada ontológica, poderíamos falar em uma "biblioterapia social".