( crônica )
A gente vive num mundo que adora uma guerra, né? Até quando o assunto é saúde, a gente fala em "combater" a doença, como se o corpo fosse um campo de batalha. E com o câncer não é diferente: "lutar contra o câncer", "vencer a batalha", "matar as células malignas"... Mas será que essa metáfora de guerra ajuda de verdade quem tá passando por essa situação?
Pensando bem, essa ideia de combate tem lá seus problemas. Primeiro, porque coloca o paciente como um soldado que precisa ser forte o tempo todo, ignorando a montanha-russa de emoções que a doença traz. Segundo, porque joga a culpa da doença no próprio paciente, como se ele não tivesse se esforçado o suficiente para "vencer a batalha". E terceiro, porque ignora que o câncer não é um inimigo externo, mas algo que faz parte da própria pessoa.
Erving Goffman, o sociólogo, falava sobre como a sociedade coloca rótulos nas pessoas, criando estigmas. E o câncer, infelizmente, ainda carrega muitos estigmas: o medo da morte, a ideia de que a pessoa é "coitadinha", a mudança na aparência física... A metáfora de guerra só piora isso, fazendo a pessoa se sentir ainda mais isolada e culpada.
Susan Sontag, uma escritora americana que teve câncer e escreveu um livro chamado "A Doença como Metáfora" ia ao encontro desta mesma perpectiva. Ela achava que essas metáforas habitualmente usadas para se referir ao câncerescondiam a complexidade do câncer e faziam a gente pensar na doença como algo misterioso e vergonhoso. Ela queria que a gente encarasse o câncer como um fato da vida, sem tanto drama e preconceito.
Mas e se, em vez de guerra, a gente falasse em cuidado? Em vez de lutar contra o câncer, que tal cuidar da pessoa, com carinho, atenção e respeito? Essa ideia de cuidado tem tudo a ver com a filosofia do "bem-viver" dos povos indígenas da América, que valoriza a harmonia entre as pessoas, a natureza e o mundo espiritual.
Cuidar significa levar em conta a pessoa como um todo, com suas emoções, seus medos e suas esperanças. Significa oferecer um tratamento que respeite a individualidade de cada um, buscando o bem-estar físico, emocional e social. E significa também reconhecer que a vida com câncer pode ser difícil, mas também pode ser cheia de significado e beleza.
Então, que tal mudarmos o discurso? Chega de falar em guerra contra o câncer! Vamos falar de cuidado, de bem-viver, de acolhimento. Vamos criar uma nova história, mais humana e compassiva, para quem enfrenta essa doença. Afinal, a vida é muito mais do que uma batalha a ser vencida. É uma jornada a ser vivida com intensidade, amor e compaixão. E, como diria Sontag, é preciso encarar a doença de frente, sem medo e sem vergonha, para que a gente possa viver cada momento com mais plenitude.
* GIovani Miguez é poeta, gestor público, analista de ciência e tecnologia do Inca-MS, especialista em Sociologia e Psicanálise mestre e doutor em Ciência da Informação.