A psicanálise, desde sua gênese com Sigmund Freud, tem sido alvo de debates acalorados sobre sua legitimidade como ciência. A epistemologia de Gaston Bachelard, com seus conceitos de ruptura epistemológica, obstáculos epistemológicos e pluralismo científico, oferece uma perspectiva outra, que não a popperiana, para analisar a psicanálise e sua relação com o conhecimento científico.
Assim, nos cabe perguntar: Em que termos epistemológicos a psicanálise pode ser considerada um saber científico à luz da epistemologia de Gaston Bachelard?
A psicanálise, ao propor o inconsciente como objeto de estudo e a interpretação como método, instaura uma ruptura epistemológica com a visão tradicional da mente humana, dominada pela consciência e pela racionalidade. Essa ruptura se alinha com a ideia bachelardiana de que o progresso científico ocorre por meio de quebras com o conhecimento estabelecido.
A psicanálise, como qualquer empreendimento científico, enfrenta obstáculos epistemológicos. A resistência à ideia do inconsciente, a dificuldade de comprovação empírica de seus conceitos e a subjetividade inerente à interpretação são exemplos de barreiras que dificultam sua aceitação como ciência nos moldes tradicionais. Bachelard, porém, nos lembra que a superação desses obstáculos é fundamental para o avanço do conhecimento, e a psicanálise tem demonstrado ao longo de sua história uma capacidade notável de se reinventar e se aprimorar, buscando constantemente superar seus próprios limites.
A epistemologia bachelardiana defende a existência de uma pluralidade de ciências, cada uma com seus métodos e objetos específicos. A psicanálise, com seu foco na subjetividade e na interpretação, pode ser vista como uma ciência com características próprias, que não se encaixa perfeitamente nos moldes das ciências naturais, mas que ainda assim contribui para a compreensão da realidade humana.
Bachelard valorizava o papel da imaginação e da poesia na construção do conhecimento científico. A psicanálise, ao lidar com sonhos, fantasias e simbolismos, reconhece a importância da imaginação e da linguagem poética para acessar e compreender o inconsciente. A interpretação dos sonhos, por exemplo, exige uma sensibilidade e uma criatividade que transcendem o mero empirismo.
A história da psicanálise é marcada por revisões, reformulações e rupturas internas, o que se assemelha à recorrência histórica observada por Bachelard na ciência. Essa constante reavaliação e aprimoramento teórico demonstram a vitalidade da psicanálise e sua busca por um maior rigor epistemológico.
A psicanálise, como "ciência do ser", nos convida a explorar as profundezas da subjetividade humana, desvendando os mistérios do inconsciente e suas manifestações na vida cotidiana. Ao fazê-lo, ela nos oferece um saber valioso sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca, um saber que transcende a mera descrição dos fenômenos e nos permite compreender as motivações mais profundas do comportamento humano.
Portanto, à luz da epistemologia de Gaston Bachelard, a psicanálise pode ser considerada um saber científico legítimo, ainda que não se enquadre nos moldes tradicionais das ciências naturais. Sua ruptura epistemológica, sua superação de obstáculos, seu pluralismo metodológico e sua valorização da imaginação a aproximam do "novo espírito científico" proposto por Bachelard. A psicanálise, como ciência do ser, contribui para a compreensão da complexidade da mente e do comportamento humano, enriquecendo o panorama do conhecimento científico e nos oferecendo ferramentas para lidar com os desafios da existência.
* Giovani Miguez é poeta, gestor público, especialista em Sociologia e Piscanalise e doutor em Ciência da Informação.