Em tempos de mares revoltos, onde o ódio navega em embarcações de discursos inflamados e promessas vazias, confesso: não carrego em meu peito o fardo do ódio. Não nutro rancor contra aqueles que se banham em rancores, mesmo quando visivelmente odiosos. Mas, que conste nos anais da minha alma inquieta, o ranço, esse companheiro indesejado, me toma conta com força desmedida.
É um ranço peculiar, ambidestro como a própria natureza humana. Na ala esquerda do meu ser, ele se manifesta como repulsa à intolerância cega, aos discursos que silenciam o diálogo e erguem muros de ódio. Na direita, aversão à manipulação da massa, à falsa promessa de redenção por líderes demagógicos que vendem ilusões em troca de poder.
O ódio, em sua fúria cega, deseja o mal. Queima bruxas imaginárias em praça pública, ergue guilhotinas de palavras para silenciar a discordância. Já o ranço, em sua amarga lucidez, apenas almeja distância. Deseja se livrar do odor nauseante da irracionalidade, da repetição cega de slogans vazios como “Deus, pátria e família”, por exemplo.
Confesso, nem sempre consigo me livrar das armadilhas do ódio. A indignação me toma conta, a voz interior clama por justiça imediata: Fogo nos fascistas! Mas, antes que a tempestade me arraste para o abismo da intolerância, o senso crítico ergue sua pá e ara o solo da razão, abrindo espaço para a reflexão.
Em meio à cacofonia de vozes exaltadas, busco refúgio na escuta atenta das vozes sensatas que encontro nos bons livros. Tento compreender as raízes do ódio, as feridas que alimentam essa chama voraz. Percebo que, muitas vezes, a intolerância é apenas um escudo frágil para mascarar a própria insegurança, a incapacidade de lidar com o diferente. Mas, ainda assim, o ranço me alerta: Não tolere a intolerância!
Não é fácil navegar por mares tão tempestuosos, onde a polarização reina e o diálogo se torna um navio fantasma à deriva. Mas, sigo em busca de um porto seguro, onde o ranço dê lugar à empatia, o ódio à compaixão e a escuta atenta seja a bússola que nos guia em direção a um futuro mais justo e tolerante.
Pois, no fim das contas, não é o ódio que nos libertará das correntes da intolerância, mas sim a compreensão mútua, o respeito pelas diferenças e a busca incansável por um diálogo genuíno.
Enfim, o bom combate.