PRÓLOGO À TESE DE DOUTORADO

16 de maio de 2024

Em 4 de abril, defendi minha tese de doutorado em Ciência da Informação. Nela, consta esta epílogo que mostra, em certo sentido, como minha pesquisa conectou-se com minha poesia.

 UM PRÓLOGO BREVE, MAS NECESSÁRIO

 

Antes de adentrar na tese propriamente dita, permitam-me um breve, mas relevante parênteses em primeira pessoa, a fim de esclarecer ao leitor sobre as razões que levaram ao prolongamento desta tese para além do tempo usual de quatro anos, justificando assim um hiato de mais de dois anos na pesquisa. Permitam-me, também, falar sobre uma invasão poético-existencial na pesquisa. Logo no início do doutorado, em março do ano de 2017, nasceu meu segundo filho, o Leonardo, que completou agora, em março, 7 anos de vida. Como é sabido, o nascimento de um filho nos leva a priorizar outras coisas e a vida passa a demandar de nós mais do que demandava. Sobretudo para quem já tinha um filho, o Benjamin, este nascido em setembro de 2013, pouco antes do início do mestrado, em 2014. Agora, imaginem, entre o mestrado e o doutorado, dois filhos chegaram. Duas alegrias, porém, duas imensas responsabilidades.


Com o nascimento do Leonardo, mas não por causa dele, alguns sinais de que algo não estava bem comigo começaram a aparecer: uma agitação mental incomum com algumas manias e compulsões. Enquanto os semestres iam se dando e os créditos das disciplinas iam sendo rigorosamente cumpridos, até com certa agilidade mental e foco incomum, uma crise existencial avassaladora seguida de comportamentos maníacos iam me tomando e, após, um abismo se abriu diante dos meus pés.


Não demorou surgir a necessidade de terapia e de alguma forma de extravasar toda essa angústia. Foi assim que, parcialmente abandonada a tese, detive-me compulsivamente em dar vasão a essa angústia por meio da escrita, mais tarde identificada como poética. Somaram-se, aos filhos, a crise existencial e uma gigante necessidade estética.


Entre meados de 2017 e final de 2023, mais de 3 mil poemas e outros fragmentos “est(éticos) existenciais”, como chamo, foram dando corpo a cerca de 40 cadernos os quais, hoje, reúno como uma espécie de cartografia dessa turbulenta travessia. Agora, eram os filhos, a crise existencial, a necessidade estética e uma sangria poética que não tinha fim.


Destes 40 cadernos, dez livros foram apresentados ao mundo como livros:

 

  • Em 2019: Quase Histórias: est(éticas) existenciais.
  • Em 2020: Animal Poético: Diário: Est(ético), Da Ilha da Poesia: um movimento estético, um diálogo poético (com o poeta de rua Ricardo Garcia) e Um poema por dia: para viventes e sobre.
  • Em 2021: Em terceira pessoa e outros poemas e Nem te conto e outros contos.
  • Em 2022: Na escuridão da travessia, poesia: seleta pandêmica (em 2 volumes).
  • Em 2023: Poesofias: entalhos e alguns retalhos e Garrafas ao mar.
  • EM 2024: Já está em processo de edição, Eufonia, euforias e outras agonias, meu 11° livro.


Entre 2016, com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff por um crime de responsabilidade que mais tarde comprovou-se inexistente, seguido pela ascensão de um discurso de extrema-direita nos Estados Unidos da América, que culminou na eleição do republicano Donald Trump, e, no Brasil, em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, um “esbirro” desse pensamento extremista e autoritário, as coisas ficaram mais difíceis.


Seguiu-se a esse caos político a pandemia da covid-19 que atingiu o mundo entre 2020 e 2021 e acabou agravando ainda mais a minha saúde mental e a necessidade de constelar minha angústia em uma escrita que não fosse a acadêmica.


No plano intelectual, vi-me diante de uma crise de narrativas no âmbito da política e dos sistemas de saúde, meus dois ambientes mais significativos. A disputa pela verdade passou a ser uma questão de sobrevivência.


O mundo tinha mudado. As mídias sociais passaram a disputar com os grandes veículos a hegemonia da informação, a relatividade da verdade estava em discussão, as notícias falsas ganhavam força e os grupos negacionistas, autoridade epistêmica. A tese em curso nunca fez tanto sentido, mas um espinho estava atravessado em meu peito, impedindo que eu visse com clareza a relação entre a tese, a poesia e o mundo.


Nesses anos, um bloqueio da minha racionalidade fez desabar sobre mim uma grande noite e, todas as vezes em que eu me deparava com a tese, uma crise de ansiedade me tomava a ponto de não ser possível prosseguir no fazer teórico.


Essa noite estendeu-se de 2018 a meados de 2023, resultando, no final deste último ano, em uma inflexão importante, um imperativo burocrático (uma pressão no trabalho) que me obrigaria a findar a tese, custasse o que custasse. Assim, a qualificação que deveria ter acontecido no início de 2020, mas ocorreu com certa dificuldade no início de 2022 e, consequentemente, trouxe um atraso significativo no processo de pesquisa.


Por outro, lado, a escrita criativa, essencialmente a poética, associada a terapias e, bem posteriormente, a intervenção medicamentosa, ajudou-me a recuperar minha lucidez e elaborar meus bloqueios.


Ainda nos anos 2022 e 2023, tomado pelas necessidades do espírito, mergulhei em leituras psicanalíticas e até iniciei e conclui uma pós-graduação em psicanálise, buscando dar conta dessas questões urgentes. Como podem ver, foi um período imenso e, igualmente, intenso.


E, assim, aqui estamos, não só com a tese possível pronta, mas com a formação de uma identidade estética que estava adormecida e que precisou irromper ao custo de uma grande crise existencial, fazendo de mim, ao mesmo tempo, pesquisador e poeta.

Peço mais uma vez desculpas por essa digressão, mas é preciso deixar documentado que esta pesquisa, que propôs a existência de um “ser humano que documenta a realidade”, foi atravessada poética e existencialmente impondo um imperativo antropológico filosófico que, se não a comprova, ao menos oferece indícios da força empírica que a tese propõe.


Pode parecer clichê, mas, nesses anos de formação como pesquisador, tive filhos e escrevi livros. Falta-me agora a semeadura; ou seja, plantar as árvores naturais e intelectuais. É o que farei nos próximos anos com o intuito de honrar esse título tão sofrido.


Esta tese é, portanto, a documentação dessa minha travessia. É, ainda, minha declaração de propósito intelectual.


Rio, 26 de janeiro de 2024.


#giovanimiguez

Tese de Doutorado em Filosofia da Ciência da Informação

BLOG DO GIOVANI MIGUEZ

Por Giovani Miguez 18 de março de 2025
Uma exploração através dos jogos de linguagem
Por Giovani Miguez 31 de janeiro de 2025
Em uma sociedade moldada por algoritmos e desinformação, precisamos de uma nova ética - uma ética do cuidado!
Por Giovani Miguez 2 de janeiro de 2025
Entre os poemas, ensaio aquilo que, em sabe um dia, serão os problemas que enfrentarei com o rigor de um filósofo; sem nunca o ser, é claro, pois reconheço minhas limitações.
Por Giovani Miguez 5 de dezembro de 2024
Sorriso de Plástico no Capitalismo Tardio
Por Giovani Miguez 3 de dezembro de 2024
Talvez minha aparente infelicidade devesse se converter em uma genuína (in)felicidade.
Por Giovani Miguez 15 de novembro de 2024
Em busca de sentido: uma jornada poética pelos livros de Giovani Miguez
Chega de falar em guerra contra o câncer! Vamos falar de cuidado, de bem-viver, de acolhimento.
Por Giovani Miguez 5 de outubro de 2024
Chega de falar em guerra contra o câncer! Vamos falar de cuidado, de bem-viver, de acolhimento.
Por Giovani Miguez 12 de setembro de 2024
Uma Análise da Psicanálise à Luz da Epistemologia de Gaston Bachelard
Por Giovani Miguez 2 de junho de 2024
A Pós-Modernidade nos Deixou Exaustos. É Hora de Cuidar Uns dos Outros
Por Giovani Miguez 2 de junho de 2024
Dos dez anos de idade, quando tentei iniciar meu primeiro diário, até hoje, são 35 anos "perdidos", parcialmente esquecidos por incapacidade de registrá-los.
Por Giovani Miguez 19 de maio de 2024
O ranço, companheiro indesejado, me toma conta com força desmedida: repulsa à intolerância e aversão à manipulação.
Por Giovani Miguez 14 de maio de 2024
As palavras do pai, escritas com tinta desbotada pelo tempo, transbordavam amor e arrependimento. Ele explicava as razões que o obrigaram a partir, pedia perdão pela dor causada e declarava seu amor eterno pelo filho.
Por Giovani Miguez 9 de maio de 2024
Cuidar é, portanto, um ato ético fundamental para a construção de uma sociedade mais humana e sustentável.
9 de maio de 2024
Com Drummond, aprendo a apreciar a beleza do cotidiano, a reconhecer a poesia nas pequenas coisas da vida.
Por Giovani Miguez 2 de maio de 2024
Caminhar é poesia em movimento.
Por Giovani Miguez 17 de abril de 2024
Wolff, Francis. Três utopias contemporâneas. Tradução Mariana Echalar. São Paulo: Editora Unesp, 2018.
Por Giovani Miguez 15 de abril de 2024
Uma Crônica sobre as Três Ecologias de Guattari e a Sociedade do Cuidado
15 de abril de 2024
Nossa humanidade frente ao avanço da Inteligência Artificial
Por Giovani Miguez 15 de abril de 2024
Reflexões a partir de seis leituras
Por Giovani Miguez 9 de abril de 2024
Da Poética de Aristóteles a uma Biblioterapia social
Por Giovani Miguez 9 de abril de 2024
A leitura é um refúgio que proporciona prazer e cura.
Por Giovani Miguez 9 de abril de 2024
O cuidado em tempos de cansaço
Por Giovani Miguez 8 de abril de 2024
Quanto vale a sua consciência?
Por Giovani Miguez 7 de abril de 2024
Fé e Dúvida: uma espetáculo
Por Giovani Miguez 7 de abril de 2024
Ninguém é tão feliz, ainda assim...
Por Giovani Miguez 7 de abril de 2024
O amor no ato criativo
Por Giovani Miguez 7 de abril de 2024
Quando falta sono
Share by: