UM PRÓLOGO BREVE, MAS NECESSÁRIO
Antes de adentrar na tese propriamente dita, permitam-me um breve, mas relevante parênteses em primeira pessoa, a fim de esclarecer ao leitor sobre as razões que levaram ao prolongamento desta tese para além do tempo usual de quatro anos, justificando assim um hiato de mais de dois anos na pesquisa. Permitam-me, também, falar sobre uma invasão poético-existencial na pesquisa. Logo no início do doutorado, em março do ano de 2017, nasceu meu segundo filho, o Leonardo, que completou agora, em março, 7 anos de vida. Como é sabido, o nascimento de um filho nos leva a priorizar outras coisas e a vida passa a demandar de nós mais do que demandava. Sobretudo para quem já tinha um filho, o Benjamin, este nascido em setembro de 2013, pouco antes do início do mestrado, em 2014. Agora, imaginem, entre o mestrado e o doutorado, dois filhos chegaram. Duas alegrias, porém, duas imensas responsabilidades.
Com o nascimento do Leonardo, mas não por causa dele, alguns sinais de que algo não estava bem comigo começaram a aparecer: uma agitação mental incomum com algumas manias e compulsões. Enquanto os semestres iam se dando e os créditos das disciplinas iam sendo rigorosamente cumpridos, até com certa agilidade mental e foco incomum, uma crise existencial avassaladora seguida de comportamentos maníacos iam me tomando e, após, um abismo se abriu diante dos meus pés.
Não demorou surgir a necessidade de terapia e de alguma forma de extravasar toda essa angústia. Foi assim que, parcialmente abandonada a tese, detive-me compulsivamente em dar vasão a essa angústia por meio da escrita, mais tarde identificada como poética. Somaram-se, aos filhos, a crise existencial e uma gigante necessidade estética.
Entre meados de 2017 e final de 2023, mais de 3 mil poemas e outros fragmentos “est(éticos) existenciais”, como chamo, foram dando corpo a cerca de 40 cadernos os quais, hoje, reúno como uma espécie de cartografia dessa turbulenta travessia. Agora, eram os filhos, a crise existencial, a necessidade estética e uma sangria poética que não tinha fim.
Destes 40 cadernos, dez livros foram apresentados ao mundo como livros:
Entre 2016, com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff por um crime de responsabilidade que mais tarde comprovou-se inexistente, seguido pela ascensão de um discurso de extrema-direita nos Estados Unidos da América, que culminou na eleição do republicano Donald Trump, e, no Brasil, em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, um “esbirro” desse pensamento extremista e autoritário, as coisas ficaram mais difíceis.
Seguiu-se a esse caos político a pandemia da covid-19 que atingiu o mundo entre 2020 e 2021 e acabou agravando ainda mais a minha saúde mental e a necessidade de constelar minha angústia em uma escrita que não fosse a acadêmica.
No plano intelectual, vi-me diante de uma crise de narrativas no âmbito da política e dos sistemas de saúde, meus dois ambientes mais significativos. A disputa pela verdade passou a ser uma questão de sobrevivência.
O mundo tinha mudado. As mídias sociais passaram a disputar com os grandes veículos a hegemonia da informação, a relatividade da verdade estava em discussão, as notícias falsas ganhavam força e os grupos negacionistas, autoridade epistêmica. A tese em curso nunca fez tanto sentido, mas um espinho estava atravessado em meu peito, impedindo que eu visse com clareza a relação entre a tese, a poesia e o mundo.
Nesses anos, um bloqueio da minha racionalidade fez desabar sobre mim uma grande noite e, todas as vezes em que eu me deparava com a tese, uma crise de ansiedade me tomava a ponto de não ser possível prosseguir no fazer teórico.
Essa noite estendeu-se de 2018 a meados de 2023, resultando, no final deste último ano, em uma inflexão importante, um imperativo burocrático (uma pressão no trabalho) que me obrigaria a findar a tese, custasse o que custasse. Assim, a qualificação que deveria ter acontecido no início de 2020, mas ocorreu com certa dificuldade no início de 2022 e, consequentemente, trouxe um atraso significativo no processo de pesquisa.
Por outro, lado, a escrita criativa, essencialmente a poética, associada a terapias e, bem posteriormente, a intervenção medicamentosa, ajudou-me a recuperar minha lucidez e elaborar meus bloqueios.
Ainda nos anos 2022 e 2023, tomado pelas necessidades do espírito, mergulhei em leituras psicanalíticas e até iniciei e conclui uma pós-graduação em psicanálise, buscando dar conta dessas questões urgentes. Como podem ver, foi um período imenso e, igualmente, intenso.
E, assim, aqui estamos, não só com a tese possível pronta, mas com a formação de uma identidade estética que estava adormecida e que precisou irromper ao custo de uma grande crise existencial, fazendo de mim, ao mesmo tempo, pesquisador e poeta.
Peço mais uma vez desculpas por essa digressão, mas é preciso deixar documentado que esta pesquisa, que propôs a existência de um “ser humano que documenta a realidade”, foi atravessada poética e existencialmente impondo um imperativo antropológico filosófico que, se não a comprova, ao menos oferece indícios da força empírica que a tese propõe.
Pode parecer clichê, mas, nesses anos de formação como pesquisador, tive filhos e escrevi livros. Falta-me agora a semeadura; ou seja, plantar as árvores naturais e intelectuais. É o que farei nos próximos anos com o intuito de honrar esse título tão sofrido.
Esta tese é, portanto, a documentação dessa minha travessia. É, ainda, minha declaração de propósito intelectual.
Rio, 26 de janeiro de 2024.